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Meruri celebra 120 anos de presença salesiana entre os Boe-Bororo

17 de janeiro de 2022

Neste 18 de janeiro de 2022 completam-se 120 anos da presença salesiana na Missão Indígena de Meruri (MT)

Um grupo de salesianos e Filhas de Maria Auxiliadora chegou às terras bororo em 18 de janeiro de 1902. O Diretor era o P. João Bálzola e a Diretora, a Irmã Rosa Kiste. Construíram a primeira missão na região dos Tachos — “Toripó”, na língua nativa. Lá fizeram os primeiros contatos com o povo bororo, desenvolvendo posteriormente atividades educativas e de autossustento. Por causa dos problemas com a escassez de água, a Missão foi transferida para a região próxima ao Morro de Meruri, às margens do Córrego Barreiro, dando origem à atual Aldeia Meruri, principal da comunidade e sede da Missão Salesiana no local até hoje. Na época, o P. João Bálzola escreveu sobre aquele momento da nossa história missionária salesiana: “Quando mostrei de longe o lugar do nosso estável acampamento, um grito unânime de alegria feriu os ares: não sei se exultaram tanto os cruzados à vista de Jerusalém. […] Achado que foi o lugar mais conveniente, todos nós descemos da sela e ajoelhando-nos, beijamos aquela terra virgem, onde, com o auxílio de Deus, erguer-se-á a primeira capela desta Missão. Eram 4 horas da tarde de 18 de janeiro, dia de sábado, véspera da festa do SS. nome de Jesus”.

Breve histórico — O atual secretário inspetorial, P. João Bosco M. Maciel, divide a história da Missão Salesiana de Meruri em 5 etapas: 1º Período: de 1902 a 1919, quando a Missão dava assistência exclusiva (econômica, sanitária, educativa e evangelizadora) aos bororo atendidos pelos Salesianos e Irmãs, com a colaboração de voluntárias leigas e alguns empregados; 2º Período: de 1919 a 1941, quando a Missão procura seu auto sustento econômico com o trabalho dos missionários, servidores não índios e dos bororo; 3º Período: de 1941 a 1965 caracterizado principalmente pelas mudanças de famílias para aldeias do Rio São Lourenço, quando o  intercâmbio de pessoal bororo por migrações de uma região para outra se acentua. Nesse período, o atendimento aos indígenas passa ao segundo plano para atender às numerosas fazendas e corruptelas de garimpeiros que surgem na região e à escola para filhos de colonos junto com os quais estudam também as crianças bororo. 4° Período: de 1965 a 1980, marcado pelo diretorado do P. João Falco, que dá uma virada no sistema de atendimento aos indígenas. Com a fundação do CIMI (Conselho Indigenista Missionário), em 1972, o compromisso missionário de evangelização passa a ser também de apoio aos indígenas na conservação da cultura, da língua e ao direito a um território onde possam continuar vivendo como povos diferenciados; 5° Período: de 1980 aos dias atuais – A Terra Indígena de Meruri com 82.301 hectares, após sua demarcação encerrada em 1976 foi homologada pelo Presidente da República pelo Decreto Nº 94014, de 11 de fevereiro de 1987. Com o aumento dos alunos bororo a escola, além do Ensino Fundamental cria, em 2009, também o Ensino Médio. Os professores são todos indígenas e a maioria tem curso superior. Merece destaque a criação do Centro de Cultura P. Rodolfo Lunkenbein, inaugurado em 2001, o qual, hoje, é referência nacional na revitalização da cultura indígena.

Desde o início dos trabalhos missionários em Mato Grosso, ao lado dos salesianos estão as Filhas de Maria Auxiliadora que, em 2008, encerraram suas atividades em Meruri concentrando-se na Missão de São Marcos. Em itinerância, continuam marcando sua presença, salutarmente em Meruri.

Mártires — O fato mais marcante na história dos salesianos em Meruri aconteceu no dia 15 de julho de 1976 quando foram assassinados o P. Rodolfo Lunkenbein, então diretor da presença salesiana, e o indígena Simão Bororo. “Às 11 horas da manhã do dia 15 de julho, a Colônia Indígena de Meruri, no leste mato-grosssense, foi atacada por 62 fazendeiros armados, cujas terras estão dentro da reserva Bororo, que começara a ser demarcada pela Funai na antevéspera. O Padre Rodolfo Lunkenbein, missionário salesiano, de 37 anos, e o índio Simão Cristino foram mortos; outros quatro Bororo ficaram feridos. Um dos atacantes também morreu, atingido por uma bala perdida de seus próprios companheiros”, escreveu D. Pedro Casaldáliga para o CIMI, naquele ano.

Em 2016 após a visita do P. Pier Luigi Cameroni, Postulador Geral para as Causas dos Santos, foram iniciados os procedimentos para dar começo ao Processo de Beatificação e Reconhecimento do Martírio do Pe. Rodolfo Lunkenbein e de Simão Bororo. Em 2018 foi aberto solenemente em Meruri o Processo Diocesano que se encerrou no dia 31 de janeiro de 2020 também em Meruri. A partir de 2021, com o processo já aprovado por Roma a Causa de Martírio continua seu andamento com a fase de elaboração da Positio super Martyrium.

Padre Ochoa — Em 1959 chegou a Meruri, vindo da Colômbia, o P. Gonzalo Ochoa. Entre os Bororo passou 50 dos seus 63 anos de sacerdócio. Acompanhou de perto o que ele chama de “ressurreição” da cultura boe-bororo, com a realização do funeral na aldeia de Meruri, em setembro de 2021. “Logo depois do Concílio Vaticano II, a carta de S. Paulo VI dizia que devíamos procurar sementes do Evangelho também entre os povos indígenas (…). Mas já não havia mais quase nada da cultura bororo naquela época. Meruri estava se encaminhando para ser uma cidade de brancos. O trabalho dos salesianos era manter uma escola que atendia a educação de todos daquela região de Alto Araguaia, Barra do Garças, Araguaiana e grande parte do leste de Mato Grosso”, lembra o missionário salesiano. Ao completar 120 anos de presença em Meruri, padre Ochoa lembra de dois outros salesianos muito importantes na história da Missão: “Padre João Falco liderou a virada na história dos bororo ao resgatar famílias que foram morar em Meruri para ajudar a preservar a cultura deles. Outro é o P. José  Marinoni, que foi o diretor depois da morte do P. Rodolfo Lunkenbein. Ele fez um imenso trabalho para pacificar a região e liderar os salesianos naquele momento tão difícil”, recorda.

Tempos atuais — A comunidade salesiana de Meruri hoje tem a direção do P. Andelson Dias de Oliveira. Ele lembra que o trabalho entre os indígenas da América do Sul é o cumprimento de vários sonhos e profecias de São João Bosco. “O nosso trabalho passou por diferentes momentos nestes 120 anos. Vejo que hoje nosso maior testemunho é estar presente com eles em suas lutas, em seus sonhos e busca por garantir e defender seus direitos. Eles mesmo repetem: tantos vieram aqui, mais somente os missionários ficaram. Apesar de tudo, estamos com eles e com eles formamos uma família no espirito salesiano. É claro que estando com eles os assistimos em suas necessidades! Evangelização, educação, saúde, a fim de que tenham vida e vida em abundância”, afirma o jovem missionário.

Para melhorar as condições de vida e sobrevivência dos indígenas de Meruri, a Missão Salesiana de Mato Grosso promove diversos projetos de atividades rentáveis. Um deles é o de pscicultura, desenvolvida nos reservatórios da comunidade. São 6 tanques, em um total de 20 mil m2 em que são criadas as espécies, pintado, Matrinchã, tambatinga e pacu aranha. No início do ano passado, foi produzida mais de meia tonelada de pescado.

Sonho missionário — A concretização dos trabalhos missionários em Meruri cumpre grande parte dos sonhos proféticos de São João Bosco para as gerações de salesianos que derramaram suor e sangue no Centro Oeste brasileiro. Nos primeiros anos da pequena e frágil Sociedade de São Francisco de Sales, Dom Bosco enviou os primeiros missionários para a Argentina (1875) para que se ocupassem dos milhares de imigrantes italianos que ali tinham chegado. Na verdade, o seu profundo desejo era que, o mais depressa possível, os seus salesianos fossem evangelizar as populações indígenas da Patagônia. “Em um dos seus maiores e proféticos sonhos missionários, Dom Bosco sobrevoa o mundo juntamente com alguns dos seus jovens, guiado por uma pastorinha. Os jovens leem os cartazes das cidades que desfilam por de baixo deles: Valparaíso, Santiago, depois montanhas, colinas e mares e ‘Pequim!’, gritam todos ao mesmo tempo. ‘Bem’, diz a Pastorinha, ‘agora traça uma linha única de uma extremidade à outra, de Santiago a Pequim, marca um centro no meio da África e terás uma ideia exata daquilo que os Salesianos devem fazer’. ‘Mas como posso fazer tudo isto?’, questiona Dom Bosco, ‘As distâncias são imensas, os lugares difíceis e os Salesianos, poucos’. ‘Não te preocupes. Farão isto os teus filhos, os filhos dos teus filhos e os filhos deles’. Pois bem, aqueles filhos somos nós e aquele sonho missionário continua vivo, muito vivo. E nós estamos dentro do sonho. Dom Bosco, se estivesse fisicamente presente no meio de nós, sentir-se-ia muito feliz, e nos mostraria isso com o seu longo e inesquecível sorriso, vendo como as suas duas grandes congregações – os Salesianos de Dom Bosco e as Filhas de Maria Auxiliadora – continuam a ser missionárias e partem para os horizontes que ele tinha sonhado com levas sucessivas para os países mais distantes”, escreveu D. Ángel Artime ao Boletim Salesiano, por ocasião do envio da 150ª expedição missionária salesiana, em 2019. No ano passado, por ocasião do Capítulo Geral XXVIII, o Reitor-mor  pediu um “ardente empenho” de cada salesiano para resgatar a identidade carismática deixada por Dom Bosco, da qual, entende-se, faz parte o trabalho entre os indígenas. “O reitor-mor no GC 28 fala que nós salesianos devemos estar ao lado dos pobres e marginalizados e com eles construir o reino de Deus na sua promoção. O carisma salesiano desde sua fundação foi com os jovens mais pobres. Se nos afastarmos das nossas origens, certamente não seremos salesianos de Dom Bosco. Por tanto diante daquilo que falou o Reitor Mor é preciso viver com os povos indígenas, em particular onde estamos com o Povo Bororo, o Sacramento da Presença. Saber ouvir, saber sentir e saber lutar por e com eles. Foi graças a esta presença que nestes 120 anos os bororo não foram a extinção como tantos antropólogos previam. Pela presença a vida foi promovida e defendida. Permanecer com eles tem sido o segredo da vivência da nossa espiritualidade. Temos que agradecer, porque justamente viemos para Mato Grosso para o trabalho com os povos indígenas e aqui estamos na fidelidade a nossa vocação”, afirma o P. Andelson, atual diretor de Meruri.

 

Confira no link abaixo o artigo escrito pelo P. João Bosco Maciel, secretário inspetorial BCG, sobre os 120 anos da presença salesiana em Meruri.

120 Meruri

 

Euclides Fernandes

DRT/MS 55/02

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