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II Encontro anual dos Agentes de Pastoral Bororo é realizado em Rondonópolis

20 de agosto de 2018

Entre os dias 13 a 16 de agosto foi realizada a segunda edição do Encontro anual dos Agentes de Pastoral Bororo, em Rondonópolis-MT.

Pela segunda vez nos reunimos na sede da diocese de Rondonópolis-Guiratinga, muito bem acolhidos pelo bispo Dom Juventino Kestering, um grupo formado por 20 agentes de pastoral bororo representantes de todas as aldeias, três anciões como assessores culturais e quatro missionários do CIMI-MT: Ir. Valdina Tambosi, a leiga Sílvia M. Valentim Pinheiro, o salesiano Mestre Mário Bordignon e o leigo Sebastião C. Moreira vindo da sede de Cuiabá. Participaram também o pároco de São José do Povo, Pe. Artur Moreira Brito, juridicamente responsável pela Terra Indígena de Tadarimana e o Pe. Lauri Rodrigues da Silva, pároco de Jucimeira e juridicamente responsável pelas Terras Indígenas de Teresa Cristina e Perigara. Éramos ao todo 30 pessoas mais um pequeno grupo de acompanhantes bem no estilo indígena.  O primeiro encontro foi para conhecer a realidade da vivência religiosa nas aldeias, responder à pergunta: Por que os Bororo pedem o Batismo? e logicamente começar a organizar-se como agentes de pastoral bororo.

Neste segundo encontro procuramos refletir sobre a cultura bororo assessorados pelos anciões para depois responder melhor às perguntas do questionário em preparação ao Sínodo Pan-Amazônico que acontecerá no ano que vem tendo em vista uma igreja com “rosto amazônico” e depois descobrir como os sacramentos da igreja católica tem ligações dentro da cultura bororo que ajudam a entende-los melhor. Durante o encontro se ouviram e ensaiaram bastante cantos bororo e cantos conhecidos do povo católico mas cantados em língua bororo ensaiados com o Lourenço Pirojibo Bororo.

A chegada foi no dia 13 de agosto e o encontro começou no dia 14 com a coordenação a cargo dos Bororo de Meruri. José Mário Kugarubo iniciou dando a palavra ao anfitrião Dom Juventino que nos acolheu e destacou: “Aqui na terra dos Bororo nós queremos aprender com os Bororo, aprender a trabalhar para que o Evangelho seja luz, vida, alegria, esperança dentro da cultura bororo. Obrigado pela presença de vocês.”

Em seguida convidou o chefe cultural Ismael Atugoreu a fazer uma oração de abertura com um canto bororo que traduzindo dizia: “Venha tua luz a iluminar nossa cabeça… melhorar nosso coração… nossos olhos… nossas mãos com coisas bonitas…”  Após a apresentação de cada um foi feita uma pergunta: Como hoje você definiria com uma frase a cultura bororo? As repostas foram variadas e diferenciadas tanto quanto a variedade das aldeias de origem de cada um e da idade. Juntamos as respostas parecidas e por assuntos.

– Nossa cultura é muito rica, bonita. Todo antropólogo fala isso. Cabe a nós descobrir seu valor… Ela veio lá de cima, de Deus. Nós com a força dos Aroe, dos antepassados, podemos viver nossa cultura mesmo usando coisas de Braedoge, dos não índios… A realidade é diferente, mas apesar de tudo a cultura ainda existe… Temos só dois chefes grandes, Joaquim e Raimundo e estão velhos. Quem vai puxar depois?…  Falta participar e valorizar em todos os setores, também na escola… Escola é bom mas mais importante é a educação familiar, lá se aprende a língua, a cultura… Minha mãe é bem Bororo e eu aprendo com ela a falar, a cantar… No passado braedoge atrapalhou nossa cultura, castigava, proibia seja com a missão seja com o SPI (Serviço de Proteção aos Índios)… Nosso funeral é grande, é profundo, é um mistério, não é fácil intender tudo, o mesmo na igreja… Têm crianças que mostram muito interesse, precisa incentivá-las… Mas os jovens preferem o futebol, o baile e o celular ou só assistir aos rituais e não participar e depois vão estudar na universidade e ali os braedoge pedem a cultura para eles. Ai deveriam voltar para aprender direito… Hoje nossa cultura existe mas está enfraquecida… Algumas aldeias não têm mais ritual… Perigara, Piebaga, Jarudori. O ritual diminuiu muito…Lá na nossa aldeia hoje estamos sem chefes de cerimônia… Falta incentivo… Na nossa aldeia se fala a língua… Resistimos apesar do SPI… Eu sou professor e não tenho medo de usar a língua… Está cada vez mais difícil praticar a cultura… Seria bom ter algum projeto… Mas podemos nos fortalecer, resistir com a ajuda de Deus e da igreja… Na nossa aldeia antigamente reunia, brincava, conversava, cantava, fazia ritual… Hoje se faz o ritual mas poucos homens e mulheres participam, outros preferem só assistir… A tecnologia atrapalha nossa cultura… Mas a tecnologia também pode ajudar, tem Bororo gravando no celular os rituais e os cantos no pendrive… Na nossa aldeia só se fala português, de vez em quando se escuta alguma palavra em bororo… Hoje a cultura depende muito do financeiro, tem despesa para tudo. No passado não era assim. Nossa língua está acabando rápido. Xavante e Bakairi não têm medo de falar a língua. Bororo tem medo.

No fim surgiu a proposta de um grupo cultural itinerante nas aldeias juntando a celebração dos ritos dos Bororo com a celebração dos sacramentos católicos. Nos bastidores o Ismael ficou combinando com os Bororo do Perigara celebrar assim o Boe Iedodu, junto com o batismo católico marcado lá para o mês de setembro. Tomara que aconteça!

Em seguida o coordenador convidou os anciões Joaquim Burudui e Amarilho Toribugo a sentar na frente para abordar alguns assuntos importantes da cultura dos Bororo tais como: a natureza, o papel do Bari, do pajé, do Aroetawarare, xamã das almas, a importância do funeral e o papel da mulher. Eles falaram na língua bororo e Ismael traduzia. Resumimos assim as colocações:

A natureza, a água, os peixes, os animais, as aves, as plantas, os morros… são muito bons para os Bororo, dão comida, dão remédio. Eles dão o nome para tudo, nomes materiais e nomes espirituais. Quando são usados nos rituais se tornam Aroe, Espíritos. Algumas coisas são dos Espíritos bons e outras dos Espíritos ruins, os Bope, precisa então pedir ao Bari de afastá-los e assim poderem ser usados. Tem Bope ruis e Bope bons diz Joaquim. O Bari usa mais o poder dos Espíritos ruins mas tem  Bari que usa seu poder para fazer o bem, igual a um padre como muito deles dizem. Um Bari bom procura ajudar seu povo, curar suas doenças, ajudar nas caçadas e pescarias, dar bons conselhos, disciplinar o povo as vezes com o poder de suas ameaças. A palavra Aroe tem muitos sentidos: coisas da natureza, finados, vivos celebrando os rituais, antepassados heroicos protetores dos vários grupos clãnicos. O Aroetawarare, o xamã das almas é escolhido pelas almas dos antepassados. Ele só trabalha com o bem e fala com as almas. Hoje não tem mais Bari. Alguns dos presentes acharam bom, outros não.

Depois se falou do funeral bororo com participação também de pessoas do grupo que conhecem bem a cultura bororo. Funeral bororo não é igual aos Baedoge. A pessoa não é igual a bicho. Precisa de rituais. O rito e o finado dependem um do outro. Precisa viver o que o finado viveu. Ensinar para os outros. Manifestar os sentimentos. Não é só choro, só sofrimento, é canto, é dança, é pescaria, é caçada, é fraternidade, é comunidade que acompanha a viagem do finado para a aldeia grande lá no céu, é vivos e mortos celebrando juntos, é sinal de amor, de carinho que cria novos laços de parentesco, é derramar sangue como Jesus na Cruz.

Para refletir sobre o papel da mulher a assessoria foi da Maria Pedrosa Urugureu, Leonida Akiri Kurireudo e Valdomira Kogue: A mulher é o esteio da cultura bororo. Ela tem que saber mostrar seu valor. Ela é a vida da casa. De criança aprende com a mãe e depois põe em prática com seus filhos desde pequenos procurando estar bem para dar um leite bom para eles. Primeiro a comida para eles, depois o resto. Preocupa com a comunidade, ser mãe de todos com amor, com o exemplo, com conselhos naquelas longas conversas de aldeia. Participa dos rituais, ela é Aroetuje, mãe das almas, dos finados.

Ela ensina às filhas a ter Poguro, vergonha, respeito, a praticar a cultura junto com a mãe. Acompanha elas de pequenas, grandinhas menstruadas e depois quando se tornam mães. Não tem medo de falar para elas de Jesus. Mãe ensina fazer esteira, bandeja, massa de urucum, adornos, ensina pintar as crianças, o marido, a ficar de luto, acompanhar o canto dos homens. No fim elas lembraram aos presentes que no passado havia sim o ritual do casamento que hoje não se pratica mais e o descreveram nos detalhes.  

No segundo dia, com a coordenação da Leonida  Akiri Kurireudo, o assunto foi o Sínodo Pan-Amazônico. Ela convidou  Dom Juventino para explicar bem do que se trata. Dom Juventino falou que Sínodo significa reunião convocada pelo papa Francisco para o ano que vem em outubro onde estarão reunidos 152 bispos da grande Amazônia que compreende nove países da América Latina que têm rios que vão na bacia do rio Amazonas. Só uma parte do Brasil incluindo Mato Grosso. O papa quer encontrar novos caminhos para a igreja na Amazônia, um ecologia integral, que respeite a natureza e as pessoas. Mas antes do Sínodo o papa quer uma consulta, quer ouvir as pessoas que moram na região, cristão ou não cristão. Ele quer ouvir a voz dos indígenas, também os Bororo. Dom Juventino falou que queria levar as propostas dos Bororo na reunião preparatória em Manaus na semana que vem. Os participantes foram então divididos em três grupos para responder a umas perguntas lembrando que o papa quer uma igreja “com rosto amazônico.” Aqui colocamos as respostas mais significativas.

PROBLEMAS: Alcoolismo e drogas, conflitos de terras, política contrária, P.E.Cs e P.L, agronegócio cercando as áreas indígenas, dificuldades de subsistência, pouca presença da igreja, presença dos evangélicos, indígenas na cidade…

FUTURO: Crise cultural precisando reagir e fortalecer a cultura e a escola, necessidade de boas parcerias e com a igreja.

NATUREZA, PESSOAS E RELIGIÃO: A igreja deve aprender com os indígenas que a natureza, as pessoas e a religião fazem uma unidade só. Tudo é sagrado.

JOVENS E RELIGIÃO BORORO: Os jovens mostram hoje  a crise cultural-religiosa. A religião bororo não muda, na sua essência. Pode ser completada. Precisa evitar a duplicidade religiosa, uma hora indígena outra hora católica ou evangélica.

VALORES CULTURAIS BORORO A OFERECER À IGREJA: O respeito à natureza, reciprocidade de doação, rituais com uma rica simbologia litúrgica com adornos, pinturas corporais, danças, cantos, alimentos como na festa do nome, no funeral, na festa dos jovens…

PARA TER UM “ROSTO AMAZÔNICO”: Aceitar a liturgia bororo; aproveitar os ministérios que já existem dentro da cultura. Exemplo 1: O chefe religioso deve ser um chefe cultural, (Bapo rogo) saber cantar, dançar, tocar chocalho. Não pode ser solteiro porque a mulher sempre o acompanha. Sem ela ele é “marenáru,” pobre, socialmente e religiosamente. Exemplo 2: O ministro da palavra deve ser como o encarregado de dar os avisos à comunidade com linguagem e toada apropriados, “Boe voadódo.” Portanto os ministérios devem vir da cultura e não de fora. O mesmo para a formação. Deve ser diferente, diferenciada, com etapas, lugares e conteúdos apropriados. Para ter um rosto Bororo os Bororo devem se preocupar com isso e um dia não depender sempre da pessoas de fora.

O QUE A IGREJA PODE FAZER? Ter uma presença respeitosa e solidária em defesa da vida, da terra, dos direitos indígenas, combatendo injustiças e preconceitos. Anunciar o Evangelho a partir da cultura do povo.

O QUE OS BORORO APRENDERAM DA IGREJA: Vida de fé em Deus, valores do Reino, devoção a Nossa Senhora, mulher modelo da igreja e dos Bororo. Os sacramentos do Batismo, Crisma e Eucaristia.

COMO OS BORORO PARTICIPAM DA IGREJA: Com os agentes de pastoral, preparando para os sacramentos, rezando o terço, lendo a palavra de Deus, chamando o padre para rezar na aldeia e administrar os sacramentos. Dando apoio religioso nas aldeias que precisam.

A MULHER INDÍGENA NA IGREJA: É valorizada. Pode ser mais como fazem os indígenas na reciprocidade, um faz uma coisa outra faz outra.

No último dia começamos com a celebração da Santa Missa presidida pelo bispo onde os cantos a as leituras se alternaram nas línguas bororo e português. Depois voltamos no salão onde conferimos uma cartilha da quatro páginas elaboradas por alguns Bororo e o Mestre Mario a ser usada na preparação aos sacramentos do Batismo, Crisma e Eucaristia. Depois juntos refletimos sobres os rituais bororo que podem ajudar a entender melhor os sete sacramentos da igreja católica. Ficou assim: o Batismo com o ritual do nome, Boe Iedodu, a Crisma com a iniciação dos rapazes, Ipare eno badodu, Eucaristia com o banquete das Almas, Aroe Enogwage, Penitência com um dos aspectos do pagamento ou compensação, Mori, e da vergonha, Poguru, Matrimônio com o casamento bororo, Ere emagu puai, Ordem com as funções referendadas pela comunidade como o pagé, Bari, o xamã das Almas, Aroetwarare, o chefe cultural, Bapo Rogo, Unção dos enfermos com o ritual de cura, Oieigo.

Em seguida cada um dos participantes relatou brevemente o que fez ou não fez durante no ano que passou. Novenas de Natal e Páscoa, Via Sacra, terço no mês de maio, convidando a participar das missas e dos sacramentos nas raras vezes que o padre apareceu na aldeia. Incentivados ad assumir cada vez mais os compromissos escolhemos depois o mês de setembro, melhor que agosto, para a próxima reunião com data a ser definida junto com a agenda da diocese que nos hospedará novamente. O tema escolhido foi: OS PADRINHOS. Após a positiva avaliação de todos e os agradecimentos finais fomos para o almoço o nos despedimos alegremente.

Mestre Mario Bordignon, SDB


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