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Missionário Xavante revela: “Se não fosse essa minha devoção a Nossa Senhora, eu não estaria aqui nesse momento”

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P. Aquilino e o inspetor P. Ricardo Carlos durante visita canônica a Nova Xavantina. Foto: Arquivo MSMT

Padre Aquilino Tseré ub’õ Tsirui’á tem 63 anos de idade, 21 de sacerdócio e 31 de vida religiosa. Hoje está à frente da Paróquia Pessoal São Domingos Sávio, na presença missionária salesiana de Nova Xavantina. Ele é o responsável por continuar um trabalho iniciado pelo P. Bartolomeo Giaccaria, um dos salesianos pioneiros nessa região do Estado de Mato Grosso. Eu substituí o P. Giaccaria em 2021. Fui nomeado para que eu continuasse a paróquia, a São Domingos Sávio, que é a paróquia pessoal, do Xavante. Então não podemos deixar para trás, o que o Padre Giaccaria começou. Ele se dedicou bastante, eu admiro muito hoje, vendo o que ele fez. A dedicação dele é invejável, porque eu não consigo fazer muito do que ele fazia, mas tento também”, declarou P. Aquilino.

Exemplo do P. Giaccaria

O trabalho na paróquia pessoal é de visitar as aldeias. Nessas visitas, além do apoio espiritual e a evangelização, P. Giaccaria levava mantimentos, comida e material de higiene. Também levava linhas e anzóis de pesca, leite e doces para as crianças. Para o P. Aquilino, o desafio hoje é realizar um trabalho semelhante, diante de uma realidade um pouco diferente. “No tempo do P. Giaccaria ainda era muito difícil porque os xavantes não tinham condições de transporte, não tinham carros, caminhões e meios de ir até às cidades. Hoje eles têm carros. Os xavantes gostavam de receber as coisas, mas o que marcou mais é que eles consideram que o P. Giaccaria se lembrava sempre deles”, afirmou.

Missionário Salesiano

Um dos fatores que tornam o trabalho do P. Aquilino diferente do seu antecessor é que ele é xavante, nascido na Marãiwatsédé, região do Alto Boa Vista, próximo de São Félix do Araguaia, mas crescido no ambiente salesiano na presença missionária de São Marcos. “Quando pensei em ser salesiano, era estranho para eles (familiares), porque ninguém foi antes de mim. Então, alguns queriam que eu ficasse, porque senão quebraria a cultura nossa, então era difícil. Mas alguns estavam também aceitando: “Não, deixa ele ir”, (diziam). Vamos ver se ele não desiste, se está querendo ir, que vá! E quem sabe, talvez o desejo grande dele, pode levar ele até ser sacerdote”, explicou.

A aceitação por parte da família e da comunidade xavante fez com que hoje P. Aquilino seja respeitado como missionário salesiano, além dos próprios laços de sangue. Essa proximidade e o acesso aos meios de comunicação, na internet e celular, fizeram com que o salesiano xavante seja um orientador espiritual do próprio povo. “Hoje estamos no tempo Pascal, e eles precisam muito de saber, comunicar, anunciar, falar da ressurreição de Jesus. E alguns assim me procuram, pedindo: ‘Eu quero o livro de liturgia Xavante, eu quero a Bíblia Xavante’. Assim eles estão pedindo”, revela.

Liturgia Romana no idioma xavante

Padre Aquilino é um dos herdeiros do trabalho do P. Georg Lachnit, falecido em 20 de abril de 2020. Foi o P. Georg quem organizou o Centro de Documentação Indígena da Inspetoria. Trabalhou na organização e realização de cursos de formação de agentes de pastoral para a etnia Xavante. Até 2019, coordenava o Núcleo de Projetos e Pesquisas Indígenas da Universidade Católica Dom Bosco (UCDB). Um dos preciosos itens deixados pelo P. Georg foi o Missal Romano em língua xavante, que hoje P. Aquilino usa para celebrar a Santa Missa junto ao seu povo.

O dia 19 de abril

Apesar das polêmicas e questões ideológicas que dividem as opiniões sobre a data de 19 de abril em homenagem aos povos originários do Brasil, entre os xavantes, todo o mês é de celebrações. Nessa festa está incluída uma das mais importantes para os xavantes, que é a ‘corrida do buriti’ – uma competição entre grupos em que cada integrante de uma equipe precisa correr carregando no ombro um tronco de buriti, pesando em torno de 50 Kg. “Antigamente, não conhecíamos o ‘Dia do Índio’. Mas, a partir dos anos 1980, os missionários alertavam, “vamos lembrar os indígenas, vamos fazer um jogral, vamos fazer um pouco de história para lembrar o que foi antigamente”. Hoje em dia, nós vemos que é uma valorização dos brasileiros não indígenas, para que os indígenas possam ser valorizados, respeitados como pessoa”.

Comunicação e tecnologia

Uma das novas linhas de atuação junto ao povo xavante em que o P. Aquilino está envolvido é a produção de vídeos religiosos salesianos em língua xavante. A iniciativa tem a liderança do salesiano irmão Marquez Ortega Padilha. Além de produções próprias de catequese e liturgia, os salesianos fazem a dublagem em xavante de vídeos produzidos pela equipe inspetorial de comunicação. “Alguns me pedem: ‘traduz o livro sobre o Dom Bosco em Xavante’, então significa que eles estão assistindo o que nós estamos fazendo. ‘Nós queremos ver também em Xavante, ler em Xavante o texto sobre o Dom Bosco, sobre Domingos Sávio, sobre Zeferino Namuncurá’”, explica.

A vocação salesiana

Padre Aquilino é o primeiro sacerdote salesiano da etnia xavante na Missão Salesiana de Mato Grosso. Outros jovens já iniciaram o caminho vocacional, mas não prosperaram. A língua portuguesa é um dos desafios, as saudades da família estão entre os maiores. Por isso, o sacerdote indígena não se cansa de reconhecer aqueles salesianos que o apoiaram na formação. “Tenho lembranças com alguns salesianos que me ajudaram a me orientar. Eram o Padre Georg Lachnitt, o Padre Bartolomeo Giaccaria, o Padre Luís Silva Leal, o Mestre Adalberto Heide, os diretores da presença salesiana de São Marcos, Padre Miguel Paes, Padre Mário Gosso, Padre Mário Panziera. Também o Mestre (Cosma) Salvatore… Trabalhei com ele como ajudante na oficina mecânica”, recorda.

No meio da conversa realizada no pátio da casa São José, sede inspetorial da MSMT, aparece por uma porta o P. João Bosco Monteiro Maciel, atual secretário inspetorial e ex-inspetor. “Hoje de manhã estava falando dele (aponta o P. João Bosco). Eu queria fazer uma carta pra ele, sabe por que? Ele era inspetor quando eu entrei para o seminário salesiano aqui em Campo Grande. Boas histórias”.

Devoção a Nossa Senhora Auxiliadora

Por causa das grandes dificuldades enfrentadas no caminho vocacional, P. Aquilino reconhece as pessoas que o apoiaram e um motivo não humano para sua perseverança. “Olha, eu fui para frente até chegar ao sacerdócio com muita fé, muita oração, muita devoção à Maria. Se não fosse essa minha devoção a Nossa Senhora Auxiliadora, eu não estaria aqui nesse momento”, revela.

Por isso, acredita também que outras vocações sacerdotais entre os xavante ainda virão. “É só esperar com paciência. Tenho muita esperança. Mas temos que rezar”, apontou.

Mensagem final

Como missionário salesiano, P. Aquilino deixa uma mensagem aos salesianos de hoje e do futuro: “Eu gostaria de me dirigir aos salesianos, principalmente, os que trabalham mesmo não diretamente com os xavante nas missões, que eles possam continuar assim, se entusiasmando para que os povos originários vejam que os salesianos estão com eles, nos jogos, nas conversas e na convivência. Os Xavantes esperam isso, e assim eles enxergam que os salesianos gostam deles. E que não se afastem deles, mas estejam sempre com eles, conversando, brincando, aprendendo a cultura deles. E eu peço para que Deus, junto da nossa mãe Maria continue nos protegendo, para que os salesianos continuem trabalhando nas missões, com bastante entusiasmo”.