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Povo Guarani Kaiowá
08/09/09 - 08:00
Por: Tonico Benites
De Campo Grande-MS
Fonte: NEPPI

O processo de colonização do território guarani kaiowá começou no período colonial e perdura até os dias atuais. A partir do século XVII seu território foi considerado terra devoluta e os guarani taxados como pagãos, infiéis, errantes e bélicos. O modo de viver dos indígenas não estaria de acordo com a virtude morais e o preceito normalidade da cultura ocidental dominante. Assim, justificavam a interferência na vida dos indígenas através de atividades catequéticas e civilizatórias na lógica de dominação européia. Subtraindo e comercializando os recursos naturais e exterminando os povos indígenas através de processos de violências truculentas. Essas inúmeras descrições e argumentações dos jesuítas, viajantes e administradores coloniais servem até hoje como bases para sistematizar a política de etnocídio na América do Sul.

A etnia guarani kaiowá do Mato Grosso do Sul foi uma das vítimas dessa política de extermínio. A partir do século XX, ocorreu a ocupação planejada do território guarani pelos pecuaristas apoiados pela política do Estado, através do órgão indigenista Serviço Proteção aos Índios, criando entre 1915 e 1928 oito minúsculas áreas denominadas de Posto Indígena, exclusivamente para confinar as famílias guaranis e liberar o resto das terras aos fazendeiros. Atualmente, essas áreas criadas não oferecem os mínimos recursos naturais e estão superlotadas.

Os indígenas se deparam com diversas situações degradantes e constrangedoras para viver como guarani kaiowá, condenados a sobreviverem confinados em uma terra destruída e sem água potável. Sem condições de se manifestar segundo a cultura guarani. Por esse motivo, grande parte dos integrantes do guarani kaiowá, nos últimos vinte anos entrou em estado de profundo desespero, perplexidade e melancolia, situação que levou ao suicídio mais de 1.000 guarani.

Hoje os guarani kaiowá do MS somam aproximadamente 45.000 indivíduos e estão distribuídos em espaços de terras com tamanhos variados, em diferentes condições de regularização fundiária (demarcadas, identificadas, sem nenhuma providência e aguardando reconhecimento do Estado) os quais denominados de posto indígena, aldeia, reserva, terra indígena, acampamento, área conflito. São assentados também em margem da rodovia e periferia das cidades.

Neste contexto, os agentes das instituições públicas e organizações religiosas têm compreensão e discursos homogêneos sobre o guarani kaiowá. Contribuem com diversas políticas públicas homogeneizantes, com o intuito de transformar o kaiowá em cidadão comum menos favorecido, assim sendo explorado a mão de obras indígenas como escravos nas usinas de álcool.

A Justiça Federal interrompeu os procedimentos de regularização de muitas terras e mandou expulsar os indígenas de suas terras tradicionais. Em decorrência disso muitos líderes kaiowá foram assassinados por pistoleiros das fazendas ou presos ilegalmente por reivindicar as suas terras originais. Não há punição para esses crimes.

Essas situações dramáticas foram configuradas principalmente por falta de terras e escassez de recursos naturais. Diante dos fatos vividos os líderes guarani resistem e lutam pela recuperação da terra, baseados nos seus direitos constitucionais Constituição Federal de 1988. Visando a garantir a continuidade de modo de ser e viver do guarani kaiowá.


Nota:
Tonico Benites
é guarani kaiowá, professor, mestre e doutorando em antropologia pela UFRJ/RJ.

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