Por: P. Gildásio Mendes dos Santos De Corumbá-MS
a) Capacidade de dialogar: Evangelho e cultura midiática - realidades conciliadoras
Para compreender e ter acesso ao tecido das relações dos indivíduos com a cultura midiática é fundamental a abertura e o diálogo da Igreja e das pastorais com o que chamamos de inculturação. Os documentos de Puebla, Medellín, São Domingos e Aparecida insistem na importância da inculturação no processo da evangelização. Talvez por muito tempo a inculturação foi enfatizada para evangelizadores nas pastorais populares. Para compreendermos o sujeito e seu comportamento no universo midiático, é necessário saber inculturar o Evangelho no tecido e no coração da comunicação na cultura midiática.
O novo Diretório de Comunicação da CNBB (ainda não publicado oficialmente), no capítulo três, número 47, intitulado “a inculturação da fé nos tempos midiáticos”, diz que “a cultura midiática muda e cresce, transformando o mundo em torno de si. A igreja segue com atenção tal processo e tem consciência da sua relevância epocal. Reconhecendo e ajuizando as possibilidades presentes na mídia, a Igreja impregnou-se do seu uso, dispensando um atento discernimento à cultura gerada pelos instrumentos midiáticos. A cultura e a comunicação constituem um areópago de importância crucial para os fins de inculturação da fé cristã”.
Portanto, cultura midiática e evangelização são duas realidades conciliadoras. Mas para que o comunicador e pastoralista sejam capazes desse diálogo, é fundamental observar as riquezas e as manifestações do que chamei anteriormente dos valores intangíveis (a busca da felicidade, da solidariedade, da gratidão, do belo, do prazer, do sagrado) e saber comunicar a mensagem cristã a partir do sujeito que cria, expressa e busca esses valores através das mídias. Além disso, a complexidade e riqueza das realidades e experiências das pessoas no cotidiano exigem uma abertura à originalidade das expressões interssubjetivas, uma capacidade de redescobrir as dimensões imaginárias da vida individual e coletiva. Isso não significa individualismo, mas a valorização da subjetividade. Dentro do cenário da cultura midiática, o compromisso com o coletivo e a solidariedade estão associados com a nova expressão da subjetividade. O comunicar tem o desafio de saber trabalhar com essa nova expressão de compromisso social e comunitário a partir da subjetividade.
b) Capacidade de observar: promover os valores intangíveis e valores percebidos
A atitude da observação dos sujeitos da comunicação é imprescindível para um diálogo de interlocução. Talvez um dos maiores dramas da comunicação na Igreja é a fratura entre o comunicador e o seu interlocutor. Isto é, falar uma linguagem desencarnada, distante, fora da realidade das pessoas. A capacidade de observar porque as pessoas buscam certos programas televisivos, porque compram certos produtos, porque se voltam para certos rituais, porque usam certa marca de roupa, comem certo tipo de comida, fazem as escolhas musicais, assistem a determinados programas de rádio e televisão permitem-nos compreender melhor as motivações e as verdadeiras intenções das pessoas. A partir da observação, nasce o respeito pelos seus sentimentos, por seus valores e suas buscas. É importante reforçar a mensagem com os novos sujeitos da cultura midiática e propor uma ética da ecologia da comunicação, da ética da beleza, da ética dos valores percebidos. João Paulo II, na sua Carta aos Artistas, introduz a ética da beleza e propõe, por exemplo, que as artes, a estética fossem o ponto de partida para um diálogo entre espiritualidade-religião e os pintores, escultores, músicos, poetas, dançarinos, escritores. O comunicador e o pastoralista da era midiática serão desafiados a rever os paradigmas de uma ética categórica, pragmática, dialética, para colher a originalidade e a riqueza dos valores, gostos, escolhas, e buscas das crianças, jovens e adultos, novos atores da cultura midiática.
c) Capacidade de confirmar: reconhecer e valorizar experiências
Semelhante à capacidade de observar o comportamento dos sujeitos da comunicação, é fundamental a atitude do comunicador e pastoralista que confirma as experiências das pessoas (na vida de oração, no trabalho profissional, nos trabalhos pastorais, na vivência do amor, na família). Recentemente, o Papa Bento XVI, na 44a Mensagem do Dia Mundial da Comunicação – 2010, diz que “também no mundo digital deve ficar patente que a amorosa atenção de Deus em Cristo por nós não é algo do passado, nem uma teoria erudita, mas uma realidade absolutamente concreta e atual”. De fato, diz ele, a pastoral no mundo digital há de conseguir mostrar aos homens do nosso tempo e à humanidade desorientada de hoje que “Deus está próximo, que, em Cristo, somos todos parte uns dos outros”. Finalmente, a importância do comunicador e pastoralista ser capaz de celebrar com as pessoas.
d) Capacidade de celebrar: valorizar e celebrar os rituais
O novo Diretório de Comunicação da CNBB, número 60, fala da liturgia como ação comunicativa.
Liturgia e comunicação possuem muitos aspectos em comum: ambas realizam-se por meio de signos e ações simbólicas; ambas requerem gestualidade e participação. O ritual litúrgico explicita o diálogo permanente entre Deus e o seu povo: Deus o reúne porque tem algo a comunicar, e o povo, movido por esse chamado, é provocado a responder ao dom oferecido com o ato de fé e o canto de louvor. A liturgia expressa esta troca maravilhosa: é, assim, um evento comunicativo, porque nele atualiza-se o diálogo entre Deus e o homem.
Com a cultura midiática, passamos de uma busca dos valores materiais para os valores imateriais. A pessoa que busca um programa religioso na televisão, que acompanha a pregação de um sacerdote no rádio, que acessa um site para procurar informações está querendo participar de uma comunidade. O que no fundo ele está buscando é o desejo de se sentir parte de uma família cristã, de ter sentido de pertença, enfim, de ser feliz. Na contemporaneidade, comunicar é compreender e partilhar os valores intangíveis. Assumir o novo paradigma da midiação/mediação é saber compreender o novo sujeito da cultura midiática, é estar aberto para favorecer as pessoas a revelarem os valores intangíveis que elas vivem e buscam.
Jesus Cristo, como comunicador maior, soube, no encontro com a Samaritana, com Nicodemos, no relato do Filho Pródigo, compreender e ajudar a revelar os valores intangíveis (amor, misericórdia, gratidão, a solidariedade) presentes no coração dos seres humanos. No coração da mensagem evangélica e no tecido dos valores cristãos estão a fonte para a inspiração e a comunicação da Boa Nova do Reino de Deus na era da midiatização e mediatização. Mas para isso, somos chamados a lançar um novo olhar para os novos tempos.
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* Gildásio Mendes fez seu primeiro mestrado em Jornalismo na UPS - Universitá Pontifícia Salesiana, Roma, e o segundo mestrado, em realidade virtual, no Departamento de Telecomunicação da Michigan State University, EUA. Seu doutorado em comunicação foi feito no Departamento de Comunicação da Wayne State University, em Michigan. É membro do comitê internacional para Estudos de Comunicação "Communication without Borders". Gildásio tem escrito vários livros e artigos para revistas internacionais na sua área de estudo e pesquisa. É autor de vários livros na área de comunicação. É membro da ICA (International Communication Association), da SOSSI (The Society for the Psychological Study of Social Issues) e NCA (National Communication Association). Gildásio é sacerdote salesiano da Inspetoria de Campo Grande, MS.
Este é um trecho do artigo: MIDIATIZAÇÃO / MEDIATIZAÇÃO: UM NOVO OLHAR PARA OS NOVOS TEMPOS, a ser publicado pela CNBB em junho de 2010, disponibilizado pelo autor para a publicação no Portal da Missão Salesiana de Mato Grosso. |