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“Educar e evangelizar hoje no habitat digital” – Segunda Parte

24 de setembro de 2022

(ANS – Roma) – No mês passado, apresentamos a nova série de artigos do P. Gildásio Mendes, Conselheiro Geral para a Comunicação Social, sobre o tema: “Educar e evangelizar, hoje, no habitat digital junto aos jovens, rumo ao futuro”. Dando continuidade a esta série de reflexões, hoje publicamos a segunda parte, na qual o P. Mendes convida a aprofundar a questão central desta nova série: como educar e evangelizar, hoje, no ambiente digital?

Existe um novo habitat que envolve todos nós. O mundo está mudando rapidamente em razão de fatores como conexão digital, internet e inteligência artificial.

Estão ocorrendo transformações epocais, no que diz respeito ao paradigma e ao modo de funcionamento destes fatores, que moldam o mundo convergente que habitamos: elas se referem à forma como administramos o dinheiro, como compramos, como investimos, a segurança, o sistema de saúde, a forma como viajamos, o mundo da educação e do entretenimento. Em poucas décadas, o mundo presenciou uma profunda mudança de paradigma cultural e social, devido à tecnologia da informação, à Internet, às mídias sociais e ao smartphone.

Com o crescimento do mundo digital, é evidente que surjam alguns desafios em relação à segurança, à privacidade e, entre outros, devemos também lembrar da exclusão digital.

Em razão do mundo digital e virtual em que vivemos, em constante transição, hoje vivemos em um ambiente imersivo, onde temos nossos contatos, dados e informações para trabalhar, viajar e nos deslocar. Além disso, a robotização da sociedade é uma realidade concreta, seja nas grandes empresas de produção industrial como na automação de outros setores, como segurança e saúde.

A infosfera abre uma nova fronteira de grandes investimentos que sucede a era dos smartphones, criando a oportunidade de adentrar um mundo com diferentes dimensões temporais, psicológicas e sociais, ampliando a experiência da realidade dos relacionamentos. A infosfera (neologismo cunhado pelo filósofo Luciano Floridi) é um termo complexo.

Basicamente é o ambiente no qual o mundo real e o virtual se integram, onde o tempo e o espaço se entrelaçam e se confundem, criando uma interação entre o on-line e o off-line.

Este cenário também vê o crescimento dos setores da automação e das inteligências artificiais, da realidade virtual e da realidade aumentada. Neste encontro entre pessoas, tecnologia e ambiente imersivo, os aspectos da vida da pessoa e da sociedade emergem na esfera pública, tornando a infosfera uma realidade.

Quando usamos essa terminologia – realidade virtual (VR) e realidade aumentada (AR), Infosfera – é importante ter uma ideia sobre o que significa esta complexidade conceitual.

Através dos 5 sentidos, portanto por meio de nossas habilidades visuais, sonoras, sensitivas e da interação com dispositivos (instrumentos virtuais como, por exemplo, óculos 3D), podemos imergir em uma realidade presente-ausente para nós, podemos imergir (através dos sentidos) em diversas realidades interativas (formadas por pessoas e dispositivos).

Mais recentemente, Mark Zuckerberg anunciou que o Facebook se tornaria um Metaverso. Este é um termo criado pelo escritor de ficção Neal Stephenson, em 1992, simplesmente para dizer que existe um mundo virtual que pode ser habitado por avatares tridimensionais de pessoas reais.

Podemos dizer que o metaverso é um universo formado por várias dimensões em um universo paralelo. Além disso, na complexidade da comunicação que a infosfera nos apresenta, testemunhamos gradativamente a influência da cibernética, da biogenética, da biopolítica e da inteligência artificial, que formam, assim, um verdadeiro caleidoscópio do ambiente comunicativo, com suas diversidades e mudanças.

Como podemos notar, o digital pode se tornar muito complexo quando o inserimos na comunicação humana, interpessoal, comunitária e institucional. Além disso, há muitas maneiras de interpretar o fenômeno digital e o contexto sociocultural e econômico da humanidade.

A forma de interpretar o digital apresenta situações práticas que têm, e terão, consequências no presente e no futuro da humanidade.

Recentemente, alguns autores vêm propondo uma reflexão baseada no conceito de Antropoceno. O pressuposto destes autores é que nós, humanos, ao longo das últimas décadas e do desenvolvimento tecnológico, geramos um vasto e devastador impacto no planeta, alterando o meio ambiente de forma ampla e significativa, atingindo a fauna, a flora, os oceanos, os organismos e seu ambiente.

Estas mudanças afetam não apenas o sistema ambiental, mas também o complexo sistema global, a cultura, as relações humanas e a maneira de viver.

Apesar de algumas divergências entre os teóricos desta visão, há, atualmente, diversos os autores que afirmam que estamos vivendo uma nova era, que combinam estas mudanças ambientais e a nova forma de viver e conviver com as tecnologias e com o virtual. Massimo Rizzante, poeta, escritor e tradutor argumenta que a única religião que atualmente ainda resta no mundo é o progresso técnico-científico. Ele pergunta: estamos vivendo em uma sociedade pós-humana?

Outro conhecido autor, Thomas Eriksen, estudioso da sociedade da informação, faz uma afirmação que toca uma questão importante, que merece ser aprofundada: estamos vivendo uma “antropologia da mudança acelerada” uma sociedade “fora de controle”. No entanto, não parece simples sustentar uma antropologia das mutações do humano.

A comunicação virtual introduziu a pessoa humana em uma nova dimensão temporal e espacial, caracterizada por velocidade, instantaneidade e interatividade. Munido de um celular, qualquer adolescente de 13 anos é capaz de fazer um filme, editá-lo, publicá-lo na internet e nas redes sociais e até mesmo transformá-lo em um negócio, inclusive escondendo sua identidade, idade e origem.

Inúmeros estudos, publicados nos últimos 30 anos, abordam os aspectos psicológicos, filosóficos, sociais e educacionais do virtual. Existe um debate permanente que investiga se estamos realmente vivendo a primazia das tecnologias, se o mundo virtual está se tornando uma nova religião, se podemos continuar a viver imersos no habitat digital sem uma ética que nos ofereça segurança, liberdade, responsabilidade e justiça. A primazia das tecnologias.

Inúmeras também são as tentativas de diálogo, por exemplo, entre filosofia e virtualidade, psicologia e inteligência artificial, teologia e neurociência. Na minha opinião, é justamente neste ponto que este diálogo encontra grandes impasses e grandes desafios.

Por exemplo, a inteligência artificial dialoga muito bem com a neurociência, pois favorece a relação do cérebro humano com a lógica digital e virtual. Tal relação favorece a lógica da automação, mas se depara com um gravíssimo obstáculo ao livre arbítrio da pessoa, da consciência e da liberdade.

Para a antropologia, a filosofia, a psicologia humanista, cognitiva ou analítica, a liberdade, a consciência, o livre arbítrio, ou o papel do inconsciente no caso da psicanálise são elementos fundamentais das respectivas epistemologias. Descobrir a maneira de estabelecer um diálogo entre estas ciências, a neurociência e a inteligência artificial, será um grande desafio para o futuro.

Se por um lado há quem proponha uma visão de mutação humana na relação com a tecnologia (realidade aumentada, metaverso), por outro há quem seja muito crítico em relação à tecnologia, argumentando que o virtual nos leva a deixar de viver o real e que a tecnologia da informação é uma nova maneira de controlar as pessoas e a sociedade.

No próximo artigo, a terceira parte desta série, veremos que grandes desafios surgem nesse novo cenário digital. O grande desafio vem do fato que a tecnologia não é neutra. O virtual, de fato, emerge no contexto do complexo universo do desenvolvimento do capital, da política, das diversas ideologias de grupos, da dominação das empresas, que com seu capital e suas pesquisas detêm o controle da estrutura, organização e dos conteúdos da internet e das redes sociais. Além disso, tudo se conecta: o sistema tecnológico, o econômico, a saúde, a educação, a segurança e o conflito de interesses entre o Estado e as empresas.

P. Gildásio Mendes

Conselheiro Geral para a Comunicação Social

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