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Diretor de Nova Xavantina faz testemunho sobre o trabalho da Sra. Josina entre os salesianos

8 de julho de 2020

Conheci a voluntária missionária salesiana Josina Maria Ludmila Silva no ano de 2002, quando fui trabalhar com o Povo Boe-Bororo, na aldeia Meruri, vizinha mais próxima da aldeia São Marcos, onde ela morava com a comunidade das Irmãs Salesianas FMA.

Nunca trabalhamos juntos numa mesma comunidade. As ocasiões dos contatos diretos com ela se deram durante os Encontros de Missionários, realizados duas vezes por ano e sediado em sistema de rodízio nas quatro comunidades salesianas das Missões e em outros eventos da Inspetoria.

A lembrança que tenho dela é, primeiramente, a de uma mulher consagrada a Deus. Tudo o que ela falava e o modo como se comportava era o de uma pessoa que tinha um projeto de vida bem definido, no qual a religião cristã católica, no estilo salesiano, aparecia com clareza.

Depois, uma característica marcante dela era a da radicalidade cristã. A sua frugalidade pessoal, a disposição para o trabalho, desde os mais humildes e sacrificados (inclusive braçais!), até os mais elaborados, como, por exemplo, a fluência com que falava a complexa Língua Xavante e as reflexões carregadas de profundidade e esperança que apresentava em grupos ou plenários.

Eu também sempre vi na Josina o exemplo de uma pessoa a quem Deus deu o dom da simpatia, da doçura demonstrada nos relacionamentos, do sorriso que acolhia e valorizava quem estivesse próximo. Os missionários do CIMI/MT sempre se alegravam com os doces que ela enviava por ocasião das assembleias estaduais e lembraram desse gesto nas redes sociais no dia do seu falecimento, além de tantas outras manifestações de sentimento.

Ela tinha uma sinceridade caridosa e segurança em suas ideias e opiniões. Como exemplo de sua segurança, lembro o que ela me disse quando, em 2007, foi aventada a possibilidade de eu ir trabalhar na aldeia São Marcos. Eu lhe disse que temia a diferença de cultura, pois trabalhava há muito tempo com os Boe-Bororo. Ela me disse simplesmente que, em sua opinião, eu logo passaria a amar os Xavante do mesmo modo com que amava os Boe-Bororo e que eu conquistaria logo os Xavante. Não me esqueço dessa resposta firme, animadora e esperançosa. Hoje, eu trabalho com os Xavante. Não em São Marcos, mas na T.I. Parabubure, onde constato que este sentimento é realmente verdadeiro.

Em 2013, após a Visita Extraordinária realizada pelo Pe. Natale Vitali à nossa Inspetoria, este pediu a reflexão sobre uma possível saída dos missionários e missionárias da T.I. São Marcos. Eu era o Coordenador Inspetorial do Setor Missões. Enquanto o assunto era debatido em diversas reuniões, ela foi, junto ao Cacique Raimundo Urébété Ai’reró, num domingo, à minha comunidade da aldeia Meruri e ambos pediram que os salesianos não tomassem aquela decisão. No dia dessa visita, eu me lembro de uma ideia expressada por ela que sempre me fez refletir: ela sentia que no passado, no início do trabalho missionário inspetorial, havia menos recursos, menos meios e mais sacrifícios, mas, segundo ela, havia mais alegria e dedicação no desenvolvimento dos trabalhos; atitudes que ela não via nos salesianos missionários daquele momento presente. A sinceridade dela me impressionou e eu não tive outra resposta a não ser o silêncio.

Nessa ocasião dos debates sobre as orientações do Visitador Extraordinário, ela, primeiramente, disse, em público, que, se os salesianos e salesianas saíssem de São Marcos, ela lá permaneceria, nem que fosse para se alimentar somente de coquinhos e mangas. E, sobre a mesma questão, num segundo momento, me ajudou muito a discernir e encontrar a melhor solução para a delicada situação. Como o problema principal era a falta de salesianos, ela sugeriu que a comunidade de São Marcos fosse canonicamente mantida, abrangendo a comunidade de Meruri como uma espécie de departamento e, assim, ambas continuariam com a presença e atuação dos salesianos. A ideia foi acolhida pelo Conselho Inspetorial e foi seguida por um bom tempo.

Como vocês, prezados leitores, podem perceber, esses fatos sobre a vida da voluntária missionária salesiana Josina foram, apesar de poucos, marcantes e fortes para minha pessoa, de modo existencial e, principalmente em vista de um compromisso maior com a Causa Indígena, à qual continuo servindo e, por que não dizer, também militando. Para nós, salesianos, formadores de gerações de jovens, a Causa Indígena, em sua rica diversidade, é fundamentalmente necessária. E, graças a Deus e a tantos missionários e missionárias dedicados, vemos crescer, no momento atual brasileiro, o número dos seus apoiadores.

A história das Missões Salesianas em Mato Grosso não seria a mesma sem a presença laboriosa e significativa de voluntários e voluntárias tão abnegados como a nossa Irmã, em Dom Bosco e Madre Mazzarello, Josina Maria Ludmila Silva. Salesianos, Salesianas e os Povos Boe-Bororo e Xavante lhe agradecem pelo testemunho cristão e pedem a Deus outros servidores para os desafios atuais.

Nova Xavantina, 07 de julho de 2020.

Pe. Eloir Inácio de Oliveira, SDB – Diretor da Comunidade Salesiana

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