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A superação da ‘coisificação’ da pessoa

11 de fevereiro de 2015
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A ação humana deve sempre significar algo propositado, consciente e voltado à realização de determinados fins e/ou intenções. Essa constatação é essencial para a compreensão das ações de Dom Bosco na constante busca de uma juventude capaz de desempenhar as funções de agente da história e de partícipe da glória. Sendo assim, é meu propósito analisar, com o presente artigo, a incrível aproximação entre as ações de Dom Bosco, a partir de sua opção por um trabalho identificado com a juventude, com as ideias de Emmanuel Mournier, com a Filosofia Personalista.

Para Dom Bosco, a inserção ativa do jovem na sociedade, mediante o trabalho, a honradez e o exemplo de vida era fundamental para que o mesmo tivesse uma participação social de relevância e uma identificação especial com os ensinamentos evangélicos. Sobre os jovens abandonados, ele disse: “Se uma mão benfeitora os afasta oportunamente dos perigos, encaminha-os para uma carreira honrosa e forma-os na virtude por meio da religião, será um benefício para eles, tornando-os bons cristãos e honestos cidadãos”.

Na vida de Dom Bosco, no seu papel de educador, toda ação para a inserção do jovem na sociedade defendia o contemplar, o olhar com atenção, o considerar com admiração ou com amor (dimensão espiritual) todas as práticas cristãs que caracterizavam as casas salesianas.

As coincidências das ações

O objetivo de Dom Bosco era consolidar uma proposta de educação a serviço da pessoa humana. Ocorreu, porém, uma grande aproximação com as ideias de Emmanuel Mournier (1905 – 1950), aquelas que estão presentes na obra Traité du caractere (Nouvelle éd., rev. Paris: Du Seuil, 1947), que defendiam uma educação completa, integral, capaz de “formar ao mesmo tempo e ao mesmo movimento, homens de fé e de independência, fiéis e homens de combate!”. Incrível como duas propostas, de tempos diferentes, podem ter tantas aproximações: homens de fé traduzem-se em bons cristãos, independência é igual a protagonismo e homens de combate, ser cidadão.

Revisitando Jean Lacroix (1900 – 1986), na obra Mounier Educateur (Esprit, nº 12, 1950), pude constatar o quanto o Santo dos Jovens foi um homem de percepção muito apurada e de profunda capacidade para antecipar as ideias e os fatos do futuro. Na referida obra, existe a defesa do educador profeta, isto é, do educador que possui como“função mais alta o anunciar e o elevar, o fazer surgir o tempo futuro, e por isso ajudar a nascer um homem novo”.

Segundo Alino Lorenzon, na sua obra Atualidade do pensamento de Emmanuel Mounier, publicada pela Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul, 1996, a filosofia de Mounier defende que “a escola não pode visar, primeiramente, a instrução nem a preparação pura e exclusiva de uma profissão ou do desenvolvimento de determinada função social, nem do desenvolvimento de uma personalidade”. Neste sentido, “a meta de toda educação é o despertar da pessoa […], o desabrochar da existência verdadeiramente humana, que é imanência e transcendência […]”. Em Dom Bosco, ficava transparente a preocupação com uma educação voltada para a eficácia, tendo como referência a razão, a religião e a bondade. Logo, sem nenhum esforço, somos capazes de perceber que Dom Bosco sempre buscou uma educação que não abre mão da existência de Deus no mundo físico e da relação desejada com o Reino no dia a dia histórico.

Nossas ações em sintonia com Dom Bosco e Mournier

Como seguidores de Dom Bosco, continuadores de uma obra que está sempre em processo de reinvenção, de adaptação aos tempos e lugares, sem perder sua essência, devemos aprofundar nossas reflexões sobre as ações de Dom Bosco e de Emmanuel Mournier na relação com a filosofia personalista. Para o Projeto Operativo de Dom Bosco e para o Personalismo, o ideal de modelo de homem a ser trabalhado deve estar identificado com três ideias essenciais.

A primeira diz respeito à centralidade que a formação da pessoa deve ocupar nas reflexões deflagradoras das ações humanas, isto é, nada pode ser definido, assumido e colocado em prática sem que possua uma estreita relação com os processos formativos que levem em consideração as exigências individuais e comunitárias do universo pessoal de cada jovem.

A segunda anuncia a necessidade de uma educação integral, cujas características fundamentais defendem para as obras salesianas, escolar ou oratoriana, atividades educativas que estejam focadas na promoção da comunidade de pessoas, significando que o jovem não pode ser “formatado” rigidamente por regras e normas que possuem como objetivos o adestramento e a domesticação e, sim, deve ser educado a partir da sua verdade interior.

Por último, temos a ideia que propõe a individualização pedagógica, a educação personalizada, que leva em consideração a essência da pessoa e as suas intencionalidades que, ao serem consideração, alimentam uma formação capaz de fazer valer o exercício pleno do protagonismo; capaz de garantir a existência de uma educação para a liberdade; de liberar o jovem de mitos e falsas ideias que empobrecem ou dificultam a busca da verdade; de fazer do jovem o próprio agente de seu processo educativo, criticando a educação tradicional e o autoritarismo existente no processo educacional que, muitas vezes, desconhece a pessoa que está formando. Que a educação seja capaz de oportunizar os conhecimentos necessários para que a humanidade possa, de fato, constituir-se comunidade de pessoas e não “amontoado de seres formatados, coisificados”.

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